Erros da campanha do Estadão



finalmedchimp.JPGAté então, vinha me abstendo de comentários sobre a campanha do Estadão, o que não significa que não tenha me ofendido enquanto blogueira. A blogosfera ferveu debatendo a credibilidade de blogs versus imprensa: é praticamente um consenso que a credibilidade dos jornais é tão ou mais questionável que a de blogs, já que o compromisso com a veracidade das informações deveria ser muito maior nos veículos de comunicação que possuem a legitimação social que os jornais têm. No entanto, como nos mostrou o Alex, a credibilidade do Estadão está mais para argumento publicitário do que para prática jornalística.

E foi como publicitária que a campanha do Estadão me deixou mais incomodada. Como uma idéia ingênua, simplória, preconceituosa e debochada pode ter sido encaminhada por uma agência e aprovada pelo cliente? Buzzmarketing? Difícil de acreditar, “falem mal mas falem de mim” pode servir para celebridades brainless como Daniela Cicarelli e Paris Hilton, mas não para uma empresa que precisa construir uma imagem positiva. O que se passou na cabeça dos publicitários da Talent e do Estadão? As justificativas e tentativas de esclarecimentos não parecem explicar, tampouco melhorar a situação do jornal e da agência, que para mim, é tão digna de repúdio quanto seu cliente.

Depois de ler as últimas matérias do Link sobre a polêmica da campanha e o post do Alex sobre a notícia falsa não retratada do Estadão, concluo a Talent cometeu pelo menos três erros grosseiros, que poderiam reprovar qualquer trabalho de alunos de publicidade.

O Estadão diz:
“O responsável pela criação da campanha, o publicitário João Livi, da agência Talent, disse que a propaganda tinha por objetivo reafirmar a credibilidade do portal.”

Erro 1: Anti-propaganda
Tentar enaltecer qualidades do cliente atribuindo defeitos à “concorrência” não é uma boa estratégia. Além de ser ineficaz, pode ter efeito contrário, como foi o caso.

Erro 2: Falta de coerência
Imagine uma campanha da Coca sugerindo que guaraná é ruim, já que seu refrigerante de cola está perdendo mercado para as várias marcas de guaraná que existem no Brasil. Coca-cola também vende guaraná, o Kuat, mas isso não vem ao caso. O negócio é convencer o público de que guaraná não presta e que Coca-cola é que é refrigerante bom. Não faz sentido o Estadão manter blogs em seu portal e usar como argumento de publicidade a generalização de que blogs não são passíveis de credibilidade.

Erro 3: Propaganda enganosa
Qualquer pessoa tem noção de que não é possível usar como argumento de venda uma qualidade que um produto não tem. Os publicitários aprendem que devem explorar o diferencial do cliente; sabem que em uma campanha publicitária é possível omitir os defeitos do anunciante, mas também aprendem que nunca, jamais, poderão anunciar o que não é verdade. Dizer que a campanha do Estadão é “propaganda enganosa” pode até ser um exagero, mas talvez “credibilidade” não seja exatamente o ponto forte do jornal.

De qualquer forma, como diria meu caro orientador, a polêmica é construtiva. A mancada do Estadão parece ter feito blogueiros discutirem e refletirem mais sobre o papel dos blogs na sociedade. Por mais que as matérias sobre blogs no Link ainda mostrem uma tendência contrária aos blogs, nem tudo está perdido. Um dos repórteres em questão resolveu fazer o blog Desvenda Blogs, onde pretende entender a blogosfera de forma mais aprofundada entrevistando blogueiros que são referência no país. A iniciativa é boa, mas vale repreender com um chavão: demorou!

Saiba mais:

    One Response

    1. Excelente análise técnica sobre como não promover produtos.

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